Ah, os fogos de artifício!

Foto do centro de Phnom Penh. Instagram.
River Side Phnom Penh. Instagram

E foram mais ou menos 15 minutos de fogos de artifício colorindo os céus de Phnom Penh.

Não era ano novo, tampouco um festival; apenas mais um dia de campanha política do Partido Popular do Camboja, no poder há quase 30 anos. O primeiro-ministro Hun Sen, conhecido internacionalmente por abuso de poder e opressão contra opositores, deve ser reeleito mais uma vez no próximo dia 27.

Ele vive em uma mansão próxima ao monumento à independência – com heliporto e toda sorte de mordomias possíveis. Seus oficiais dirigem carros importados, velozes, buzinando o tempo todo no caótico tráfego da cidade. Há corrupção por todos os lados e também miséria.

E era exatamente sobre isso que pensava enquanto assistia da sacada do prédio a queima de fogos em algum ponto distante da cidade. Logo nos primeiros dias me deparei com crianças nas ruas e cenas realmente tristes de um país mergulhado em uma crise sistêmica.

Nesse meio tempo aprendi a não comer nas mesas colocadas nas calçadas, pois é a única maneira de não engolir seco uma garfada enquanto uma criança pede comida.

Percebi também que é inútil alimentar apenas uma – em minutos, atraídas pela criança com um sanduíche nas mãos, outras várias, talvez uma dezena delas, aparece do nada com o mesmo pedido. Como disse, é um problema sistêmico que nem a ONU conseguiu resolver (em 1992 em uma missão de paz o Camboja passou a ser controlado pelas Nações Unidas em uma tentativa de reconstruir o sistema político e econômico, assim como estabelecer políticas sociais, de saúde e educação).

Enquanto aqueles fogos explodiam colorindo os céus, eu via os rostos dessas crianças – talvez elas estivessem maravilhadas com o brilho das luzes. Apenas inocência e ilusão. Para mim, aquilo tudo era bonito, mas também revoltante. Eu só conseguia imaginar o povo faminto olhando para o alto enquanto dinheiro público explodia em cores e diferentes formas.

Caso me perguntem qual foi minha primeira impressão daqui, direi que foi um misto de choque e beleza – tal qual os fogos de artifício. Disseram-me que com o tempo se domestica o olhar, mas eu espero (e quero) continuar perplexo com a miséria e feliz quando receber um sorriso nas ruas ou ouvir uma história qualquer contada por um morador local. Vale ressaltar que depois dos brasileiros, os cambojanos são para mim as pessoas mais receptivas que conheci!

Talvez eu seja cético em relação aos rumos políticos do país – quero ser surpreendido pela mudança. Mas é pouco provável.  O povo do Camboja também merece essa surpresa. Ai sim terei motivos para festejar com fogos de artifício.

OBS – No final de semana posto as fotos que fiz nas primeiras duas semanas por aqui! Confira o vídeo que gravei com o iPad no trajeto Sihanoukville – Phnom Penh:

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