Não, não somos tão narcisistas

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Todos os anos escrevo um post de aniversário – foi assim em outros blogs, e continuará sendo por um bom tempo. O fato é que um pouco antes do meu aniversário acabei me deparando – coincidentemente – com a capa da Time Magazine. O título era interessante e a matéria principal a respeito dos tais Millenials, essa geração dos ‘vinte e poucos anos’ que cresceu com o desenvolvimento da internet e usufrui de todas as redes sociais possíveis – ou a tal “me me me generation” como diz o artigo escrito por Joel Stein.

Desta vez não vou apostar em meus próprios devaneios ao completar mais um ano de vida, mas vou contar em breves linhas a história de um desses viajantes que conheci em algum canto do planeta, e que compartilhou comigo um pouco das suas experiências, sonhos e dificuldades enfrentadas. Um jovem com a vida parecida à de muitos outros que conheço, inclusive a minha.

Trata-se de um jovem de vinte e poucos anos, recém graduado, morador de um país qualquer da Europa. Mais um na fila para fazer um estágio não remunerado sonhando com um futuro melhor.

No turno da noite esse jovem trabalha em um restaurante, o que lhe permite ter dinheiro para  viajar e frequentar bares e cafés locais – na verdade, o foco dele é descobrir o mundo, conhecer culturas diferentes e conversar com pessoas tão diversas como os grãos de areia que cobrem o Saara (metáfora usada por ele mesmo).

Talvez ele queira um carro ou uma casa, um emprego fixo em uma multinacional qualquer, família e estabilidade. Não. Por hora, o que ele realmente quer é ganhar dinheiro e continuar suas viagens pelo mundo. Ele faz mestrado em uma universidade, é um aluno aplicado e tira notas boas. Tem medo da crise econômica que assola a Europa, mas dinheiro não é algo tão fundamental assim.

Seu apartamento é pequeno, no subúrbio. Não há muita mobília, apenas o necessário – mas ele tem um macbook air e vários CDs, além disso, uma câmera fotográfica e uma coleção de National Geographic. Fotografia é seu hobbie. Ele posta fotos no Instagram, tem um blog em que escreve sobre música, vende artigos como freelancer para uma revista e no momento filma um documentário com um coletivo cultural do qual faz parte.

Seria ele um desses narcisistas do século XXI? Perguntei isso a ele pelo Skype e sua resposta foi: “Não me considero um narcisista, meus pais quando tinham a minha idade já estavam casados e o foco principal deles era comprar uma casa e um carro, depois ter filhos e estabelecer uma família nos moldes em que a sociedade requer”.

Não pensamos em família. Ao menos posso me juntar a ele e dizer que este é um assunto não muito citado em nossas conversas. Quem sabe no futuro?

Estamos bem, seguimos nossas vidas sem luxo, lutamos pelo que acreditamos e queremos nos divertir. Somos a geração que recicla, a geração que pensa em direitos humanos e que faz trabalhos voluntários. Não, não moramos com os nossos pais e, apesar de passar por problemas financeiros, continuamos vivendo nossas vidas, aprendendo a tirar muito do pouco, a andar de ônibus, ler um bom livro e frequentarmos festas e clubes mais “acessíveis” ao nosso poder aquisitivo.

Mas voltando à história, posso dizer que ele acredita no ser humano. Acredita que nunca vivemos um período tão propício à paz e ao combate à pobreza. Acredita que as dificuldades enfrentadas pelo capitalismo moderno vai levar a humanidade a um caminho mais igualitário. Um sonhador talvez? Sim, mas com seus vinte e poucos anos, tem aval para continuar sonhando. Não há problema em ser um pouco utópico com tão pouca idade.

Ele carrega consigo um caderno no qual toma notas dos lugares visitados, anota contatos e escreve seus pensamentos. Alguns dos textos são publicados em seu blog, com compartilhamentos através das redes sociais. Seu sonho é trabalhar com “o que realmente acredita” – algo diferente da geração anterior, que permanece eternamente em seus empregos e não desfruta de nenhum prazer a não ser nos finais de semana quando estão livres da burocracia que os prende.

Enfim, esse jovem que conheci é como muitos outros tais Millenials: pessoas que possuem uma urgência em conhecer o mundo e buscam inspiração para torná-lo um lugar melhor para se viver. Não são pessoas providas de muito dinheiro e ‘vida mansa’, como aponta o artigo da Times. São pessoas que apostam na simplicidade e querem fazer suas vidas valerem a pena.

Não acredito que todos os jovens sejam assim – na verdade, gostaria de verdade que todos partilhassem um pouco deste pensamento. Talvez esse seja o perfil do jovem europeu ou de pessoas que têm a oportunidade de viver em países nos quais há mais igualdade e pouca preocupação em ostentar bens materiais (preciso escrever a respeito da minha experiência dinamarquesa).

Crescemos com a televisão, adentramos no mundo da internet e sim, nós compartilhamos nossas vidas em diversas redes sociais, mas não acredito que isso seja um sinal de narcisismo ou qualquer outro adjetivo pejorativo.

Salvo aqui ao menos os jovens viajantes, aqueles que usufruem dos benefícios da tal globalização para conhecer o outro, compreender o outro e, mais do que isso, respeitar o outro. Eu conheci o jovem citado acima em um albergue em Lisboa e acabei percebendo que o mundo é sim pequeno para nós. Ficamos hospedados no mesmo couch em Nova York, e conhecemos vários lugares em comum. Temos também a mesma idade, o que torna tudo ainda mais interessante.

Não acredito que vamos salvar o mundo e nem ao menos torná-lo pior. O que creio ser exagero são os esteriótipos que colocam sob nós em uma tentativa de criar uma imagem tola e superficial de quem somos. Nunca fomos melhores do que hoje, nunca conhecemos tanto do mundo como hoje e isso tem um efeito positivo.

Quando li a matéria acabei me recordando das conversas que tivemos em um bar qualquer do Bairro Alto de Lisboa e de alguns pensamentos que compartilhamos. Talvez muito em breve vamos nos encontrar em uma viagem qualquer e eu vou poder compartilhar com ele todos esses pensamentos.

Como disse anteriormente, o mundo é pequeno e temos o futuro diante de nós. Não, não somos tão narcisistas como podemos parecer. Um brinde aos meus 24 anos!

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