Escandinávia à brasileira

Relatos de um mestrando que encontrou um pouco de Brasil na gelada Dinamarca

Lá se foram quase dois meses desde que cheguei a terras dinamarquesas. O que se passava na minha cabeça logo antes de chegar por aqui era simples: cultura e língua completamente diferente e pessoas que não conhecem nada da realidade brasileira. Não sou muito de assumir que julguei mal, mas nesse caso, foi exatamente isso.

No dia três de Setembro desembarquei na estação ferroviária de Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca onde permaneço até julho do ano que vem, quando concluo o meu primeiro ano de mestrado antes de ir para a especialização no Reino Unido.

A chegada é sempre conturbada, e a prioridade era pegar as chaves do apartamento e correr para um lugar seguro onde pudesse dormir por pelo menos 10 horas (graças ao Jet Lag!). No Centro Internacional da universidade, me disseram que era preciso a assinatura da chefe do departamento para que eu tivesse o contrato de locação em mãos, tinha de esperar.

Passados alguns minutos, lá vem uma mulher caucasiana, de cabelos loiros, e diz: “Olá, você deve ser o Péricles, não é?”. Meu olhar estrangeiro naquelas primeiras horas ficou ainda mais acuado. E eu logo perguntei se ela falava português.

A moça em questão é Louise Ydemann, uma jovem dinamarquesa que morou no Brasil por um ano, se apaixonou pela Bahia e, em terras tupiniquins, encontrou seu marido, um cubano que segundo ela “adora falar português, comer feijoada e beber caipirinhas”. Sai de lá com as chaves do meu apartamento e também o telefone e email de Louise, pronto para marcar um jantar brasileiro qualquer dia.

A Dinamarca é um país completamente diferente do Brasil, desde a organização social e política até os extremos do clima. Por aqui, sol é uma dádiva que deve ser aproveitada ao máximo tendo em vista que dias claros de céu azul não fazem parte do cotidiano da fria Escandinávia. Talvez isso contribua para que a Escandinávia veja no Brasil um oásis tropical ou uma fuga para o inverno úmido e sombrio.

O Brasil está na moda

Não existe uma comunidade brasileira estabelecida na Dinamarca. O serviço de imigração é muito complexo e o Estado de bem-estar social acaba tornando ainda mais dura a vida de quem quer se tornar cidadão dinamarquês. Ainda assim, a Universidade de Aarhus tem há 20 anos um curso de Estudos Brasileiros – começou como uma ênfase de outro curso de linguística e logo depois se tornou bacharel, expandindo também para o mestrado e doutorado.

As aulas são ministradas em “português brasileiro” e incluem linguística, história e economia brasileira. Mas porque essa parte do mundo se interessa pelo Brasil? Fiz essa mesma pergunta para o professor Vinicius Mariano de Carvalho, ex-militar, músico e professor que chegou em Aarhus como professor visitante e é atualmente responsável pela reforma do bacharelado em Estudos Brasileiros que aumentou em 200% o número de alunos nos últimos anos.

Para o professor Vinicius, o Brasil está na moda. “Estamos vivendo um momento propício a isso com o crescimento econômico. Logo, cresce o interesse pelo país, aumentam as perspectivas de negócios bilaterais e tem o fator cultural também”, explicou. Eu concordei que o fator cultural tem relação direta com o interesse em estudar português e aprender mais sobre a distante América do Sul.

No mestrado em Jornalismo, Media e Globalização tenho colegas de 45 nacionalidades, um verdadeiro supermercado de amigos. É claro que logo de imediato a identificação é com os latinos e brasileiros, mas logo chegam os outros para uma conversa mais intensa sobre a tríade “governo Lula, música e carnaval”.

Um exemplo é o jornalista suíço Philippe Stalder que já esteve no Brasil três vezes e é apaixonado pelo carnaval de Salvador. Em nossa primeira conversa, ele me fez ouvir Seu Jorge e queria saber qual era o instrumento que fazia “aquele som interessante”. Respondi prontamente: “é a cuíca”. A norueguesa Hannah Pincus também coleciona três viagens ao Brasil. “Eu ainda quero retornar ao Brasil, preciso conhecer a Amazônia agora”, responde ela à minha pergunta sobre a possibilidade de um quarto retorno.

A cultura

Para o professor Vinicius, não basta apenas aprender português e ter conhecimento geográfico, político e econômico em relação ao Brasil, “é preciso ir fundo na cultura, como um meio de entender a sociedade e aprender de uma maneira mais dinâmica”. Nesse sentido, Aarhus está bem servida de atividades culturais brasileiras.

Em Setembro o departamento organizou a “Semana Brasileira”, uma evento maior que não abordou apenas questões voltadas para o mundo dos negócios, mas cuja ênfase fosse na literatura, música e cinema. “É uma maneira de aproximá-los de nós, e fazê-los mudar uma percepção europeia de que o Brasil tem uma cultura pitoresca”, argumentou o professor. Aliás, ao próprio docente foi dedicada uma página do jornal universitário, destacando o uso da cultura e música para o aprendizado de português.

Neste evento foram exibidos filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos e Quincas Berro d’Agua seguidos de discussões a respeito da obra de Jorge Amado e sua influência na cultura brasileira. Além disso, aconteceram várias outras atividades musicais. “No ano passado falamos de Gonzaga, e ensinamos forró para os alunos, queríamos o ritmo do nordeste. Essa é a maneira brasileira de ensinar, e nós queremos trazer isso para a Dinamarca”, conta o professor.

A resposta dos alunos às atividades e da comunidade local aos eventos é bastante positiva. No ano passado, cerca de dez estudantes dinamarqueses desembarcaram no coração da Amazônia e passaram dias floresta adentro visitando tribos indígenas e conhecendo a realidade local de ribeirinhos. A grande maioria também tem a possibilidade de ir para o Brasil estudar um ano em uma das oito universidades federais conveniadas com o programa dinamarquês. “Eles vão pra lá, e muitas vezes se chocam no início. Depois de um tempo o feedback é excelente. Nosso povo sabe como acolher pessoas”, explicou Vinicius.

O Brasil tem muito peso internacional na atualidade. A Europa vive seu pior momento desde o período após a Segunda Guerra. A todo o momento ouvimos notícias de cortes econômicos, diminuição de benefícios e incertezas em relação ao futuro do bloco. Os BRICS, como são chamados os países emergentes, se tornaram uma viabilidade segura de negócios durante esse período turbulento.

Mas acredito que o interesse pelo Brasil vai além das questões econômicas e entra no campo cultural. “Não tem como não gostar da cultura brasileira”, me disse um dinamarquês no ponto de ônibus.

Enquanto passeava de bicicleta pelo campus outro dia, me deparei com estudantes lendo a biografia de Clarice Lispector (escrita por Benjamin Moser) e segui em frente sorrindo. Liguei para uma amiga no Brasil e compartilhei com ela: “Estão lendo Clarice! Há salvação para a Europa inundada de Paulo Coelho!”.

Por menor que seja a Dinamarca, é bom reconhecer sinais brasileiros e, de certo modo, me sentir “em casa”, ao acompanhar discussões sobre Jorge Amado, Gonzaga, Clarice, etc.

Que venha o inverno dinamarquês – há pelo menos um feixe de luz do Brasil em Aarhus!

Texto escrito em Outubro de 2012

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