Da Holanda a Portugal: O autocarro da crise

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Na véspera do natal os portugueses retornam a suas casas – ironicamente o encontro familiar e as festividades de fim de ano se tornaram para alguns o último laço com a Península Ibérica. Estes são em sua maioria jovens forasteiros que partiram sem olhar para trás e agora retornam junto comigo para seus lares.

Este pode ser tranquilamente o resumo das 30 horas que passei em um ônibus (ou seria autocarro?) cruzando a Europa até chegar à cidade do Porto. Da fria e chuvosa Amsterdã para Portugal de clima relativamente ameno (ao menos para quem está vivendo cá no norte, na Escandinávia). Foi interessante colher relatos de uma juventude que perdeu seu lar em meio à terrível crise econômica que assola a zona do Euro e que criou nos últimos anos um fluxo migratório intenso para o norte do continente. Como eles próprios dizem, “cá no norte tens mais oportunidades. Se calhar eu encontro um emprego na Bélgica ou na Holanda”.

Já no início da minha jornada, Julia falava ao ‘telemóvel’ e contava para uma amiga seu drama: estava há dois meses em Amsterdã, mas não havia nenhum emprego a vista. Voltar para Portugal, ao menos para ela, era a única saída. Mas o que vou fazer por lá, questionou ela. Sentado na poltrona da frente eu apenas cogitei mentalmente uma resposta, ainda que na verdade não compreendia quão séria era a situação daqueles jovens – o que mudou completamente já nas primeiras horas dentro daquele que eu chamo de “o autocarro da crise”.

Era preciso trocar de ônibus em Bruxelas e logo ali comecei uma conversa interessante com um marroquino que voltava para Portugal após várias tentativas frustradas de conseguir um emprego na Bélgica. Apesar de falar bem o português, seu problema era o inglês e o francês. “Não consigo emprego aqui porque não consigo me comunicar. E agora também já não sei mais o que fazer, tenho filhos e preciso trabalhar. É triste dizer isso mas pela primeira vez após mais de uma década na Europa, eu penso em voltar para casa. Não há nada em Portugal, o país morreu”, explicou ele.

Todos os passageiros que ali estavam pareciam caminhar para um cortejo fúnebre e as histórias iam se multiplicando à medida que as milhas iam ficando para trás. Em meio a todos esses, Ronaldo me chamou a atenção. Um brasileiro alto, negro, que trabalha com construção civil na Europa. “Eu quebro pedra, construo piscinas e faço outros serviços”, disse ele.  Há dez anos sem visitar o Brasil, o mineiro compartilha sua história de vida como quem conta uma daquelas histórias de redenção que muitos venderam décadas atrás – a ideia de ir para a Europa, fazer dinheiro e construir uma vida nova.

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Ronaldo confessou que chegou a ganhar muito dinheiro em Portugal e Espanha, mas o custo de vida e os luxos de ter roupas de marca, carro e poder curtir as festas no velho mundo não permitiram que ele reunisse o montante necessário para realizar seu sonho maior que é construir uma casa em um terreno que ganhou de sua mãe e montar seu negócio. Como ele próprio repetia exaustivamente, “levo jeito para os negócios”.

Tendo aproveitado bem ou mal a oportunidade que teve, seu foco agora é ganhar mais dinheiro, talvez em Bruxelas, e poder retornar para o Brasil. “O pessoal anda dizendo coisas muito boas sobre o desenvolvimento do Brasil. Não há lugar melhor do que o nosso país”, dizia ele suspirando ao imaginar sua bela Minas Gerais. Na verdade as histórias vão se repetindo – o marroquino, o brasileiro, o iraniano… Todos que ali estavam compartilhavam essa extrema tristeza diante de um Portugal arrasado pelas políticas de austeridade impostas pela União Europeia.

Enquanto cortávamos a Espanha, tive a oportunidade de conhecer um casal que voltava definitivamente para a terrinha – para o descontentamento geral do restante dos passageiros que tentava convencê-los a voltar para Bruxelas. Ouvi de longe promessas de contatos com patrões, tentativas de ajudá-los a qualquer custo.  Em defesa eles disseram que mesmo no norte da Europa está muito difícil conseguir emprego. “Há uma reserva de mercado para quem quer fazer trabalhos pesados e definitivamente estamos ganhando cerca de 1000 ou 1500 euros por mês, e o custo de vida é muito alto”, me explicou detalhadamente o rapaz.

É bem verdade que mesmo em cidades como Berlim eu pude colher relatos de pessoas que estão ganhando este mesmo montante como baristas ou vendedores. Sim, a crise afetou de maneira impensável todo o continente.

Um adolescente fuma maconha quando paramos em uma cidade qualquer da Espanha. O seu plano é voltar para Lisboa e lá ingressar no serviço militar. “É minha única saída”, afirmou. Seus pais se mudaram para Bruxelas há cerca de quatro anos e sem ter entrado em uma universidade, ele é mais um na estatística do desemprego.

Havia também uma jovem falante que tentava entreter duas crianças barulhentas e choronas que só não causavam mais discórdia do que falar em Angela Merkel. “Portugal agora só a passeio, não tem mais condições de morar aqui”, disse ela após me mostrar em seu iPad uma lista enorme de música sertaneja do Brasil.

Apesar do sorriso, ela compartilhou também seu drama amoroso que se arrasta há mais de um ano e meio. Quando ela decidiu deixar Portugal para trabalhar “na casa de madame” em Bruxelas,  teve de deixar para trás seu namorado, e desde então eles namoram à distância e tentam se encontrar o maior número de vezes possível – ou melhor, quando a grana sobra e ela pode enfrentar as árduas 30 horas dentro do “autocarro da crise”.

Seu sonho é que ele a siga e também se mude para a Bélgica. “Seria tudo perfeito e eu acho que estamos caminhando para isso. Não é possível dois jovens de 26 e 28 anos residirem em um país que não nos oferece mais nada. Ele está morando com os pais, desempregado”. No país a taxa de desemprego só aumenta e segundo levantamento feito em dezembro de 2012 já chegou a 16,5%. Em toda a União Europeia 23,4% dos jovens estão desempregados. A situação se agrava em Portugal, Espanha e Grécia.

Após as 30 horas sofridas dentro do ‘autocarro’ a terrinha estava à nossa frente, e o que antes eram apenas histórias de uma crise anunciada se materializou nos noticiários, nas conversas de boteco, nas pichações que cobrem muros e fachadas, na desilusão dos jovens que frequentam o boêmio Bairro Alto em Lisboa.

Há certa ironia em percorrer estes caminhos e chegar a Portugal em um momento de tamanha tristeza, principalmente se pensarmos que o país já foi o sonho de muitos brasileiros em décadas passadas. Há, de fato, um colapso financeiro no país e partidos políticos duelam entre si com propostas de cura, talvez algum tipo de tratamento experimental para um país que já se cansou de quimioterapias. A estratégia socialista é cortar as medidas de austeridade – isso está exposto em outdoors por toda parte. O partido é atualmente a maior força de oposição ao presidente Aníbal Cavaco Siva.

Na realidade o país se tornou refém das imposições duras por parte da União Europeia – personificada na figura sempre enérgica da chanceler alemã Angela Merkel. Em meio a isso, há quem defenda a saída do país do bloco econômico. “Era muito melhor antes”, afirmam alguns. Outros preferem acreditar que seguindo a cartilha alemã, o país sairá da crise em poucos anos.

Vi um mercado consumidor enfraquecido, um natal sem grandes expectativas em que a classe média portuguesa temia gastar suas últimas reservas. O conselho dos economistas na televisão era poupar para o futuro uma vez que a situação pode se agravar ainda mais.

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Mas acima de tudo eu pude perceber uma juventude desiludida, sem grandes perspectivas profissionais – pessoas que em seus vinte e poucos anos precisam estabelecer uma rota de fuga, um novo horizonte para que suas aspirações juvenis se tornem reais. Dizem que é em tempos de crise que surgem novas perspectivas e que se constrói algo relevante – espero que assim seja para o povo português.

Espero que o país saia da crise o mais rápido possível e então as pessoas possam desfrutar da beleza de seu país em cafés, bares e restaurantes. Particularmente, eu me perdi e me encontrei nas ruas de Braga ou Lisboa, e apesar de me divertir durante minha viagem à terrinha, trouxe comigo os relatos tristes de um povo que atualmente sofre e em meio à escuridão não conseguem enxergar uma luz no fim do túnel.

Pequeno reparo feito cordialmente pela minha amiga portuguesa Graça Santos, de Braga:

A oposição política faz-se ao governo (presidente, 1.º ministro Passos Coelho) e não tanto ao Presidente da República Cavaco Silva, a este senhor pede-se maior envolvimento e intervenção junto do governo.

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2 thoughts on “Da Holanda a Portugal: O autocarro da crise

  1. Otimo, Péricles, conseguiste agarrar os sentimentos das pessoas, não foste indiferente ao termómetro emocional que cá se vive. Só um pequeno reparo: a oposição política faz-se ao governo (presidente, 1.º ministro Passos Coelho) e não tanto ao Presidente da República Cavaco Silva, a este senhor pede-se maior envolvimento e intervenção junto do governo.
    Abraço
    Graça Santos, mãe da Laura

  2. Dona Graça, obrigado pelo comentário. Fico feliz que tenha gostado. Agradeço mais uma vez por ter me recebido tão bem em sua casa! Pode ter certeza de que estarás sempre comigo.

    Obrigado pela observação acerca da oposição política. Irei adicioná-la ao texto!

    Abraço.
    Péricles

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