“Não importa quem seja o novo líder, é sempre mais do mesmo”, diz blogueiro chinês

Onde é exibido, o documentário High Tech, Low Life arrebata plateias e ascende o debate a respeito da liberdade de expressão na China.

Trata-se do registro do dia-a-dia de dois jornalistas cidadãos que resolveram enfrentar as barreiras do fechado Partido Comunista e reportar sobre os problemas sociais e políticos do país. Dirigido por Stephen Maing, o filme entrou na seleção oficial do badalado Festival de Tribeca em Nova York e venceu importantes premiações em cinco festivais de cinema em diferentes partes do globo.

Dirigido por Stephen Maing, o documentário conta a história de Zola Zhou e Tiger Temple, blogueiros responsáveis por contar a história que ninguém lê nos jornais diários do país. Por conta do ativismo, eles já enfrentaram perseguições e foram mantidos presos em domicílio durante os jogos olímpicos de Pequim.

Vivendo em Taiwan com a esposa, Zola Zhou falou ao repórter Péricles Carvalho sobre suas perspectivas a respeito da transferência de poder no país e sobre as dificuldades em reportar problemas sociais e políticas ante à censura. Otimista, ele acredita que a população começou a se despertar e questionar as políticas do Partido Comunista, principalmente através da internet.

Para o jornalista cidadão e ativista, não importa muito quem está à frente do Partido Comunista, pois a população continuará sofrendo e os problemas permanecerão. “Acredito que a sociedade se fortaleça, e assim possamos pressionar o partido, ter outras representações políticas e lutar por uma China igualitária”, argumenta ele.

 

O Partido Comunista Chinês concluiu na última semana a transferência de poder para Xi Jinping, que assume o comando do país no início do ano. Qual é a repercussão disso entre os chineses?

Bem, eu não me interesso muito pelo Partido Comunista, primeiro porque se trata de uma comunidade extremamente fechada, e também porque o partido controla tudo no país. Sei que precisamos de liberdade de expressão, liberdade para publicarmos o que quisermos quando quisermos. Eu quero acreditar que o governo proteja os direitos humanos como qualquer outro país, mas sei que não é assim. Espero que a China se torne uma sociedade aberta com outros partidos competindo com o Partido Comunista nas eleições. Eu acredito que só com essas mudanças a população poderá ver um futuro mais democrático. Ainda que mudem o líder, é sempre mais do mesmo.

Muitos estudiosos apontam que partido pode se fechar ainda mais e se tornar mais autoritário com a transferência de poder para Xi Jinping. Você acredita que o governo possa impor ainda mais censura?

Eu não tenho uma opinião formada sobre o novo chefe. Mas eu espero que nos próximos anos a sociedade civil chinesa se fortaleça e o governo tenha menor influência nas decisões corriqueiras, queria eu que a sociedade não dependesse tanto de um novo chefe com o estilo de Xi Jinping. Lutamos para que a sociedade se una e pressione mais o partido, lutando por liberdade de expressão e pelo fim da censura e não precisem implorar por direitos ao comando central.

Em um curto período de tempo, pode-se esperar uma China desenvolvida e mais democrática – com menor desigualdade social e melhores condições de vida principalmente para a população rural – ou os chineses tendem a se tornar ultranacionalistas fechando os olhos diante dos problemas locais?

Eu acredito que a internet e a tecnologia da informação vão ajudar as pessoas a ter mais e mais informação. Muitas pessoas já estão criticando e julgando as ações do governo de forma independente. Eu acredito que a China se tornará um país mais democrático – muitas pessoas estão se levantando para defender seus direitos como cidadãos. Mas ao mesmo tempo a máquina de propaganda do partido continua funcionando incessantemente, temos como exemplo o canal de televisão CCTV e o Global Time.

Como vemos no documentário, você trabalha com redes sociais e discute problemas recorrentes do dia-a-dia chinês, como as questões envolvendo os direitos a propriedade privada, desenvolvimento e liberdade de expressão. Como os chineses recebem a sua mensagem?

Eu tenho um blog e várias contas em diversas redes sociais como o Twitter, YouTube e Flikr, além de outras redes populares na China. Desse modo eu distribuo conteúdo e as pessoas acabam me seguindo através da rede e também pela assinatura de leitura. Muitas vezes, na China, as pessoas acabam transmitindo a informação entre amigos quando eu escrevo grandes histórias envolvendo alguma questão social. É assim que as pessoas recebem o que escrevo e acabam discutindo em plataformas online ou em reuniões formais e informais entre amigos e colegas.
Utilizar a internet na China é um desafio tendo em vista o controle do governo em relação a tudo o que é postado. Você sofre intimidação por parte das autoridades?

Sim. O meu blog é bloqueado na China, entretanto meu trabalho como repórter cidadão é legal na China. Eu não me sinto intimidado. A polícia não critica minha opinião, mas me coloca em prisão domiciliar durante alguns períodos especiais, como aconteceu durante os Jogos Olímpicos de Pequim. No momento eu não estou vivendo na China, estou em Taipei (Taiwan) com minha esposa, mas tenho certeza de que não poderia ir a lugar nenhum durante este último congresso do Partido Comunista.

O trabalho realizado por você e Tiger Temple com o jornalismo cidadão na China foi mundialmente exposto com o documentário High Tech Low Life.  Você acredita que o filme pode ajudar a mudar a atual situação de censura na China?

Eu não acredito que o documentário possa ajudar a mudar a situação de opressão na China porque o filme não pode sequer ser exibido em território nacional. Até mesmo no Reino Unido a Embaixada da China pediu que a exibição fosse cancelada.
O que é jornalismo cidadão para você e porque decidiu trilhar esse caminho?

Para mim é simplesmente gravar e postar por gostar de fazer isso. Eu não sinto que estou arriscando minha vida. Se eu reporto sobre os problemas locais eu com certeza vou ter que lidar com pressões locais vindas de autoridades. Mas não me vejo como um dissidente político, sou apenas um blogueiro porque gosto disso, é minha diversão.

A juventude chinesa parece ter uma tendência ao nacionalismo e não parece disposta a discutir os problemas internos do país. Você, enquanto jovem bloqueiro, não se sente sozinho nessa luta pelo direito à liberdade de expressão?

Você está certo, a juventude chinesa não parece muito aberta para discutir os problemas do país, e em grande parte isso ocorre por causa da censura. Mas eu acredito que há um crescente espaço de discussão e debate na internet. Idealistas nunca se sentem sozinho, há sempre alguém para compartilhar a mesma causa.

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