Os fracassos de Gay Talese em “Vida de Escritor”

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Anotações de Talese na época em que escrevia o perfil de Sinatra

Passei o último mês de molho, descansando e passeando por diferentes cidades do interior na expectativa de apreender cada rua que é significativa para mim assim como retratos de pessoas e suas rugas, marcas do tempo que vão se congelar para mim durante os dias em que eu estiver fora. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar…

Além da culinária goiana e das mais recentes descobertas a respeito do meu colesterol e afins, eu tive grandes experiências lendo alguns livros que para mim eram fundamentais e que até então eu não tinha conseguido, de fato, realizar. Pouco tempo, trabalho, correria, etc. Enfim, são muitas as desculpas que me afastaram de alguns escritores – entre eles, Gay Talese.

O jornalista em questão (considerado um dos fundadores do “new journalism”) estava na minha tão angustiante lista de leitura, mas até então não passava de um projeto para o futuro. Foi ai que eu decidi comprar Vida de Escritor, seu livro, digamos, biográfico, em que ele conta histórias de pessoas comuns e contextos peculiares de seu principal ofício, a observação.

Se Gay Talese passa décadas observando um ponto comercial um tanto quanto “amaldiçoado” em Nova York ou então desenvolve certa fixação por uma jogadora de futebol chinesa que perdeu um pênalti contra os Estados Unidos, cabe ao leitor ter o mesmo instinto de curiosidade para continuar lendo o livro. É o lado B do jornalismo que compramos nas bancas, aqueles detalhes que com certeza não estarão nas manchetes.

E acredite, por menores que sejam as histórias, há sempre um enquadramento e uma narrativa que vai te prender até o final de cada capítulo. Ironicamente Talese se apega a essas fixações de escritor: pautas e entrevistas que caíram no esquecimento ou então foram consideradas fracassadas por editores.

O ponto alto para mim foram as páginas dedicadas à detalhada narração da cobertura dos chamados “Freedom Riders” que lutaram pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Entre os personagens está John Lewis (pouco conhecido, apesar de seu intenso ativismo) e Luther King.

O jornalista que havia feito faculdade de jornalismo no Alabama voltou  à cidade de Selma para ver com os próprios olhos a segregação e relata sua frustração com seus textos jornalísticos diante da riqueza de detalhes e necessidade de “tempo” para apurar as informações e dar ao leitor um material mais completo.

Aliás, Talese deixa claro em várias passagens seu complexo de mediocridade diante das fórmulas fechadas do jornalismo. Sua carreira com hard news no The New York Times durou cerca de uma década tendo o mesmo passado a se dedicar exclusivamente a contar histórias de pessoas comuns e produzir matérias como freelancer.

Literário porém não rebuscado

Uma lição importante diz respeito à linguagem do escritor: não há espaço para descrições rebuscadas e muitas vezes arcaicas para uma publicação jornalística. Apesar de valer-se da prolixidade e se delongar muito em determinadas histórias (o que torna o livro um pouco entediante em certos pontos) a linguagem de Talese é limpa e direta e flui de modo que o leitor entra nas histórias contadas e consegue atingir uma dimensão de espaço que muitas vezes o jornalismo acaba subtraindo.

Para contar boas histórias, o escritor se vale de um bloquinho e muita observação – nada muito apressado e tecnológico como é o jornalismo praticado nos dias de hoje. Na verdade, acredito que deve haver um equilíbrio entre o que prega o “New Journalism” e o que é praticado atualmente nas redações.

Vida de Escritor narra as dificuldades de trabalhar com “material humano” de uma maneira que o jornalismo convencional não está acostumado. As escolas de jornalismo convencionais e os jornais mais tradicionais se resumem a vender aspas de fontes oficiais e personalidades, tudo o que Talese abominava desde que começou no jornalismo. Mas num ímpeto de esperança, o jornalista se mostra esperançoso em relação à possibilidade de um texto com características literárias estar completamente casado com o factual.

Ninguém quer ler notícia velha que já foi publicada online. O que o futuro do jornalismo reserva é uma espécie de material híbrido, bem escrito e que valha a pena para aqueles que ainda desejarem pagar para ter informação de qualidade. Dentro dessa dinâmica, Talese e o New Journalism que ele próprio ajudou a fundar se tornam fundamentais para todos os que desejam se “atualizar” diante dos novos dilemas que cercam as vidas de escritores de notícias.

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