Hannah, o Brooklyn e eu

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Girls, nova série da HBO

Há exato um ano lá estava eu desembarcando em Nova York, prestes a pegar o metrô para o Brooklyn. A dica do meu host era certeira: assim que você descer na Dekalb, olhe para Manhattan, você vai enxergar de longe o Empire State. Ande uma quadra, dobre a esquerda, e chegue num prédio de uma antiga fábrica. Eis meu loft!

Logo que cheguei, me vi rodeado de artistas, escritores, café e muita música. Era para ser uma estadia curtíssima – apenas uns 4 dias e depois seguiria para outra casa… Mas foi muito bom estar ali e quando eu vi já tinha rodado parte dos Estados Unidos, desistido de metade do meu percurso original e estava de volta à bagunça rotineira do loft, com seus livros, sofás e canecas espalhados pelos cantos. Foram 18 dias e eu confesso que o difícil foi voltar para o Canadá. (uma foto de couch surfers no loft rendeu a um fotógrafo um prêmio internacional de fotografia).

O melhor de estar ali foi conhecer muita gente e poder reconhecer no outro um pouco do espírito dessa tal Geração Y vivendo a segunda década do século XXI – geração da qual eu faço parte. Muitos não queriam mais abandonar o Brooklyn e correram para arrumar um emprego qualquer e ir levando a vida. Sabe como é –  tempos de crise, poucas oportunidades, faculdades caríssimas – o jeito era aproveitar o momento e ver como as coisas se encaixavam.

Um recorte da juventude, de origens tão diversas quanto os milhões de moradores da Big Apple –  que passavam por ali e deixavam suas impressões de um momento conturbado que culminaria no Occupy e em outros movimentos.

O tempo passou, voltei para o Brasil e me formei. Mas eis que todas aquelas lembranças foram reacendidas: Hannah, personagem de Lena Dunham, aparece completamente falida, sem saber o que fazer da vida quando seus pais resolvem cortar a mesada. Junto com ela, outras amigas vivem dilemas semelhantes no subúrbio de Nova York, sem o glamour das festas do Upper East Side, tentando arrumar um emprego e simplesmente levar a vida da maneira mais decente possível.

O retrato da juventude nova-iorquina que não se encaixa nos padrões de Hollywood. Para constar: Hannah é um jovem escritora que não conseguiu publicar nada, estagiária não remunerada, gordinha e complexada – namora Adam, esquisitão que no início da série a enxerga apenas como brinquedo sexual. Para compor o grupo, Marnie, sua melhor amiga é recepcionista de uma galeria e namora o mesmo cara desde a faculdade; Shoshanna é uma virgem afetada; Jessa é uma londrina libertária e perdida. É claro que eu estou falando de Girls (HBO).

A série que já é sucesso nos Estados Unidos se apega ao que a minha geração tem de mais significativo: falhas e insegurança. O mundo gira de modo incerto, a economia onde quer que seja vai mal e há uma certa desilusão rodeando esses jovens. O The New York Times chegou a comparar o seriado com Sex and The City, mas como um extremo oposto. Se Carrie Bradshaw vive – como colunista – entre Manolos e verões caros nos Hamptons, Hannah e suas amigas tentam sobreviver aos apuros da vida adulta.

Há certo ponto da minha estadia naquele loft eu me perguntei: “What the hell people are doing in Manhattan? Look at Brooklyn!” Acho que enxerguei ali muito do que eu buscava naquela viagem. Não acredito que respondi meus questionamentos, aliás, sai de lá bem mais confuso. Mas acredito que me identifiquei e percebi que fazemos perguntas universais… O que quero do futuro? Como minha geração vai se reinventar diante do desemprego e da crise?

Assim como Hannah e seus amigos em Girls, percebi que a beleza de ter vinte e poucos anos nos dias de hoje é não ter tantas certezas – até porque o mundo não propicia um momento sólido. Em tempos de crise economica não há tempo para as neuroses de Carrie Bradshaw enquanto toma um drink e sai com suas amigas para comprar sapatos – as garotas (e os garotos!) precisam trabalhar.

Há lugar para o “insucesso”, há beleza em ser estranho e não se encaixar em padrões que antes poderiam ser comprados. Há também liberdade – em um ambiente de liberação e descoberta. Se tem uma coisa que levei comigo do Brooklyn e ratifiquei ao ver Girls foi a certeza de que nós, aos vinte e poucos anos, somos muito, muito parecidos.

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