Cobertura – CPMI do Cachoeira

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Aliados à espera de um tempo novo

Com cobranças por obras e definições políticas eleitorais, lideranças governistas acreditam que, agora, o governo tem tudo para deslanchar
Péricles Carvalho
BRASÍLIA – Sustentando o discurso de que o pior já passou e de que o governo ganhou fôlego para pisar no acelerador – após a sabatina de mais de 8 horas do governador Marconi Perillo (PSDB) à Comissão Parla­men­tar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacio­nal, na última terça, 12 -, lideranças da base aliada agora esperam ação. Partidários ouvidos pela Tribuna reconhecem que o momento é de focar em realização de obras e também nas costuras políticas tendo em vista o período eleitoral que se aproxima. Ou seja, apesar do otimismo pós-depoimento, expectativa de aliados geram novos desafios ao governo estadual.

Ainda que os governistas avaliem que o saldo do depoimento à CPMI foi o melhor possível, o processo para reverter os desgastes que abalaram a imagem do governador será longo e demandará dele próprio uma gestão eficaz justamente para atender os municípios que desde o início do mandato esperam obras e apoio político. Essa insatisfação já era sentida no início do ano, e se mostrou forte na Assembleia Legislativa, neste primeiro semestre.

Fôlego
Prefeitos no interior e lideranças ligadas a Marconi já não conseguem mais sustentar o discurso de que é preciso esperar “organizar as finanças” e muito menos aguardar os desdobramentos do Caso Cachoeira para que se iniciem as negociações políticas e as obras, de fato, comecem a chegar. De acordo com o deputado federal e pré-candidato em Goiânia Jovair Arantes (PTB), este momento é importante porque a base passa a ter “fôlego” para tocar em frente os projetos de governo.

“Eu vejo esse momento com muito otimismo, e como pré-candidato também fico esperando o desenrolar da indecisão vivida pela base aliada. Mas certamente, pós depoimento, levando em consideração toda a conjuntura, estamos vivendo um momento que será o divisor de águas desse governo”, avaliou Jovair.

As expectativas vêm de todos os lados. Presidente da Associação Goiana de Muni­cípios (AGM), Luiz Stival espera que a partir de agora o go­ver­no celebre acordos com os municípios, o que considera “vital para a sobrevida das prefeituras”. Stival é prefeito de Nova Veneza e foi empossado há duas semanas, após a saída do prefeito de São Mi­guel do Pas­sa Quatro, Márcio Cecílio (PSDB), do comando da AGM.

Há também uma cobrança para que o governador participe de modo mais enfático das costuras finais envolvendo as eleições municipais. Até então ele teria se ausentado por completo das negociações devido os compromissos de governo e as próprias articulações de seu depoimento na CPMI.

De acordo com a senadora Lúcia Vânia (PSDB) as coisas devem se acomodar naturalmente até o final do mês. Segundo ela, todos estavam perplexos com a quantidade de informação “desencontrada” veiculada na mídia. “Fico feliz por Marconi ter mostrado que o Estado não é um grande cassino, como a mídia dizia”, ressaltou a senadora.

Enfoque
Para se envolver de modo direto nas disputas municipais e tentar reconquistar sua base eleitoral no interior, o governador deverá focar nos programas que já estão em execução.  Como parte deste processo, na tentativa de firmar uma agenda positiva (esforço que já existe há pelo menos um mês, mas que até então tinha pequena influência diante do caso Cachoeira), Marconi deverá percorrer o Estado à medida que tiver o que mostrar para a população.

Consequentemente a postura dos aliados também deve mudar. Até então muitos enxergavam Marconi como uma influência negativa para suas candidaturas, devido ao suposto vínculo com o contraventor Carlos Cachoeira. Como apurou a Tribuna em edições anteriores, muitos prefeitos sequer desejavam tê-lo no palanque.

De acordo com o presidente da Assembleia Legislativa, Jardel Sebba (PSDB), antes de ter ido a Brasília prestar os esclarecimentos, Marconi tinha dificuldades inclusive de transitar no interior. “Aonde ele ia ele tinha que parar tudo para dar explicações. Agora isso mudou, agora o governo pode continuar trabalhando”, disse.

Até o momento o carro chefe do governo no interior é o programa Rodovida, que tem frentes já trabalhando para a recuperação das rodovias estaduais, além de melhorias na malha viária urbana em municípios do interior. A expectativa é de que os projetos e convênios com o interior sejam ampliados de modo a atender às necessidades dos municípios.

De certo modo, a busca por uma agenda positiva e movimentações na base aliada já começaram a ocorrer. Na última semana o governador teve agenda em Rio Verde (leia na pág. 3), e deverá intensificar visitas ao interior. Além disso, na sexta, 15, Marconi se reuniu em Brasília com a presidente Dilma Rousseff (PT) para discutir incrementos na economia do Estado.

Em Goiânia, a CPMI serviu para chacoalhar as lideranças envolvidas na discussão da candidatura da base aliada. Após o seu depoimento, o governador teve influência direta na desistência de Leonardo Vilela (leia na pág. 3). Neste mesmo dia os tucanos passaram uma tarde em reunião sigilosa no apartamento de Nion Albernaz, que é um dos coordenadores do processo de escolha do candidato.

Sigilo
Os líderes do governo consideram que a tempestade passou para Marconi, mas a movimentação no Congresso e a CPMI continua. Um fator que deve ser levado em consideração é que mesmo após prestar todos os esclarecimentos na CPMI, o governador se viu obrigado a seguir o exemplo do governador petista do Distrito Federal Agnelo Queiroz (que prestou depoimento um dia após Perillo) e autorizar a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e de emails.

Em coletiva de imprensa marcada às pressas, logo após a liberação da quebra de sigilo por parte de Agnelo em Brasília, Marconi anunciou que também seguiria o mesmo caminho. “Igual ao governador do Distrito Federal, eu também não temo tornar públicas as minhas movimentações fiscal e bancária”, disse ele.

Um dia antes, aliados do governador julgavam absurdo o pedido de quebra de sigilo feito pelo relator da comissão Odair Cunha (PT-MG). Por ter tratado Marconi como “investigado” e não como “testemunha” no processo, Odair entrou em um bate-boca com parlamentares da Casa que reclamaram o tratamento. Na ocasião, Mar­coni se negou a liberar seus da­dos para investigação na CPMI.

Com os novos elementos, a oposição espera encontrar mensagens de texto e também lastros financeiros que vinculem o governador às empresas fantasmas que serviam aos interesses do contraventor e de sua redes de influência.

Marconi sai em defesa de seu governo

Mesmo após longas horas de perguntas no Congresso, pode-se considerar que Mar­coni seguiu uma linha de raciocínio sólida e foi bem preparado para responder aos imbróglios envolvendo a venda de sua casa no Alphaville e outras questões sobre o suposto envolvimento de seu secretariado com a quadrilha de Carlos Cachoeira.

“Marconi foi lá para se explicar e acabou mostrando todos os avanços que conquistamos e tudo o que estamos fazendo”, defendeu Sebba. Lúcia afirmou que um dos pontos altos do discurso do governador foi mostrar “o trabalho do povo goiano e do governo nos últimos anos”.

Sobre a casa, Marconi afirmou ter feito um negócio legítimo e disse não compreender porque um assunto pessoal havia tomado tamanha proporção. A oposição alega que Wla­dimir Garcêz e Walter Paulo teriam sido mediadores da ven­da do imóvel a Cachoei­ra. Já Marconi afirma que só após o depoimento de Garcêz à CPMI é que soube do pedido de empréstimo (usado para comprar a casa) feito pelo ex-vereador ao contraventor.

Se o governador aproveitou para divulgar seu governo, também não perdeu tempo em di­zer que pegou as contas públicas na pior situação possível, em referência ao governo do ex-aliado Alcides Rodrigues (PP). Também soltou farpas em relação aos contratos de licitações firmados entre a prefeitura de Goiânia e a empresa Delta, que segundo a Polícia Federal está ligada a Carlos Cachoeira.

Em relação às denúncias da Polícia Federal que dão conta da influência do bicheiro nos negócios do governo, Marconi afirmou desconhecer qualquer atividade do tipo. Ele negou veementemente, seguidas vezes, ter conhecimento de que Cachoeira tinha influência em seu governo. Sobre o envolvimento de sua ex-chefe de gabinete, Eliane Pinheiro, o governador disse desconhecer sua ligação com o bicheiro.

Secretariado
Durante seu depoimento Marconi saiu em defesa de todos os secretários de Estado que tiveram seus nomes citados diretamente ou indiretamente ao caso Cachoeira. Sobre as denúncias envolvendo o ex-presidente do Detran Edivaldo Car­doso (PT do B) e um su­pos­to esquema favorecendo a empresa Valid Soluções e Ser­viços de Segurança na emissão de carteiras de CNH. Ele ainda disse que Cardoso foi “fundamental para a sua eleição”, em 2010.

Os parlamentares também pediram mais informações a respeito do suposto repasse de R$600 mil a uma empresa do presidente da Agência Goiana de Tranportes e Obras Públicas (Agetop) Jayme Rincón. Ele também foi tesoureiro da campanha eleitoral do governador em 2010. Nesta hora, Marconi desafiou qualquer pessoa “a provar qualquer tipo de desvio de verba ou pagamento de propina” em seu governo.

Sobre o suposto pagamento de propina ao secretário da Indústria e do Comércio (SIC) Alexandre Baldy (PSDB), o governador foi ainda mais enfático: “rico como é, duvido que tenha recebido qualquer tipo de propina. Tenho certeza que sua família tem de 20 a 30 vezes o patrimônio de Carlos Cachoeira”.

Respondendo ao relator O­dair Cunha (PT-MG), que chamou Baldy de “menino de ou­ro” de Cachoeira, Marconi dis­se que não poderia dizer pelo contraventor, mas que em relação a seu desempenho na se­cre­taria ele é sim “de ouro”. O go­vernador também defendeu a Segurança Pública em Goiás, afirmando que o Estado tem uma das melhores polícias do país.

Apoio
Durante todo o dia em que esteve contra a parede na CPMI em Brasília, Marconi estava cercado de correligionários que afirmavam estar lá para “apoiar o líder de Goiás”. Nas palavras do presidente da AGM, ele estava ali “representando a AGM e também porque acredita na veracidade do discurso do governador”.

Mais de 80 prefeitos acompanharam o depoimento de Perillo no Senado, além da presença de 17 deputados estaduais, todos os federais da base aliada (exceto Carlos Alberto Leréia que, oficialmente, estava viajando), senadores e lideranças nacionais do PSDB.

À medida que o governador se soltou e conseguiu até fazer algumas piadas os tucanos a­plau­diam e gritavam bem aos moldes da empolgação que marcou a campanha de Marco­ni em 2010. Alguns parlamentares petistas chegaram a criticar a movimentação tucana, que chamaram de “claque marconista”.

Para a grande maioria dos prefeitos, era importante estar ali para demonstrar diretamente ao governador solidariedade e apoio. De acordo com o presidente da AGM, prefeitos peemedebistas também foram espontaneamente a Brasília para apoiá-lo. Nos momentos finais, Perillo foi recebido nos corredores do Congresso com palmas e gritos: “De agora para frente, Marconi presidente”. A Tribuna, uma liderança tucana afirmou que o governo “nunca poderia pagar por uma exposição tão positiva diante do país, vendendo o desenvolvimento do Estado, em rede nacional”.

Oposição quer mais explicações

Mesmo após um longo período de explicações no Congresso Nacional, Marconi parece não ter convencido parte dos parlamentares que compõem a ala tida como independente da Comissão, e muito menos os parlamentares que fazem oposição ao governador no âmbito estadual.

Para o deputado federal Sandro Mabel (PMDB), é “muita ingenuidade” acreditar que Marconi desconhecia os negócios de Carlos Cachoeira no Estado. Ao site da revista Veja, Mabel disse que o governador “está com as dez digitais coladas no vidro”. O parlamentar também ironiza o fato de que Perillo afirmou desconhecer quem é Cavendish.

Ainda no início da sessão, terça, 12, a deputada federal Iris de Araújo (PMDB) já dava sinais de que não falaria durante a sessão e muito menos partiria para o ataque – o que de fato aconteceu. Sentada de frente para o governador, a deputada acompanhou atentamente, mas não fez nenhuma consideração. “Eu quero evitar que eles digam depois que há qualquer tipo de perseguição. Aqui ele teve a chance de fazer um longo discurso, bem de acordo com seu estilo mesmo, vendendo o governo”, disse ela.

Após a sessão e o depoimento de Marconi na CPMI, Dona Iris acabou pagando o preço pelo silêncio. Entre os marconistas houve vários comentários irônicos, alguns até afirmando que ela teria sido convencida diante dos argumentos apresentados Perillo, e por isso permaneceu calada. Diante do fato, a deputada foi obrigada a emitir uma nota explicando os motivos que a levaram a optar pelo silêncio.

“A decisão de Íris de Araújo de não questionar o governador de Goiás deve-se exclusivamente a um impedimento ético por ser adversária política do tucano em Goiás. Questionamentos da deputada ao governador Perillo seriam vistos como uma disputa paroquial de Goiás”, afirmou nota da assessoria.

Casa
Outra questão apontada por parlamentares no final da sessão diz respeito à venda da ca­sa de Marconi. Para o senador Randolfe Rodrigues (PSOL – AP) não há dúvidas de que a casa vendida foi comprada pela Delta.

De acordo com o senador, dados de transferência bancária da empresa de fachada Alberto e Pantoja mostram duas transferências bancárias em dias que batem com os as datas dos cheques apresentados pelo governador. Tais transferências também foram feitas coincidentemente à mesma empresa que pagou Marconi, a Excitante Indústria e Comércio de Confecções Ltda. “É preciso quebrar também o sigilo da Excitante e de outras empresas, como eu já havia requerido”, disse ele.

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