As histórias de Eliane Brum: reflexões sobre jornalismo

Certa vez no curso de Jornalismo um professor me disse que “mais valia um bom livro do que um ano inteiro de créditos acadêmicos”. Compreendi o que ele disse, mas apenas guardei aquilo para mim – estava imerso nas teorias da Comunicação, em ficções para passar o tempo e revistas que me interessavam no trajeto da universidade. Era apenas um calouro, mas hoje vejo que há verdade no que ele disse.

Já na reta final do curso, no ano passado, eu tenho me dedicado sistematicamente a ler sobre Comunicação, sobre novas maneiras de fazer jornalismo e, principalmente, novas maneiras de contar histórias. Afinal de contas, o que seria do jornalismo se não buscássemos outras perspectivas além da pirâmide invertida?

Antes de ir para o Canadá estudar – e me reciclar em muitos aspectos – eu havia me deparado com Eliane Brum, jornalista gaúcha que escreve para a revista Época e hoje se aventura também na ficção. Eu queria ler algo dela, além dos textos replicados nas redes sociais, das colunas. Não demorou muito e lá estava o nome dela na minha famosa e sempre crescente lista de livros.

Apesar de figurar entre os desejos literários, foi há pouco tempo que comprei “O Olho da Rua”, livro publicado pela Editora Globo que traz 10 grandes reportagens da autora e seus bastidores, onde ela discorre sobre o processo de maturação de ideias, os erros e acertos de cada um dos textos. Na verdade, o peguei no ímpeto.

O livro me levou a reflexões “existenciais” a respeito do meu futuro profissional e também a respeito da maneira como fazemos jornalismo. Somos de uma geração que cresceu com o Google, que se beneficia da rapidez e fluidez da rede. Talvez para muitos de nós “a última fronteira a ser explorada é a página 100 do resultado de busca” (li essa frase no twitter). Nos acostumamos com as redações mas deveríamos estar nas ruas, onde as coisas realmente acontecem. Não falamos pessoalmente, estamos em chats com assessores ou lendo material enviado por email.

Como a jornalista diz, é preciso “atravessar a rua de si mesmo para olhar a realidade do outro lado de sua visão do mundo”. Em outro trecho ela comenta que quando voltar a mesma de uma viagem, muda de profissão.

Reportar, escrever inteligentemente também significa mudar a si próprio – mas isso requer zelo e principalmente observação. De uma matéria sobre o fim da vida de uma merendeira (ela acompanhou os últimos meses de vida da senhora que estava com câncer), Eliane se reinventou. Em entrevistas posteriores, ela própria descreve que mudou.

Sobre a Amazônia ela dispara: é um tema impossível de apreender apenas pelo telefone ou pela internet. Para nós, muitas vezes, a Amazônia está na wikipedia, há um clique.

O Jornalismo passa por transformações substanciais e creio eu que não há mais espaço para um trabalho ancorado nos velhos macetes de disciplinas acadêmicas. Há muito o que se pensar a respeito do “fazer jornalístico”, principalmente após a internet. A história passou a ser contada por cidadãos comuns – e em meio a isso, ser jornalista tem hoje muito mais haver com descobrir o mundo e tentar compreender certo aspecto dele.

No último ano escrevi muito sobre guerras e coberturas de guerra e pude perceber que os maiores problemas na cobertura de eventos internacionais do tipo é focar em demasiado nos briefings e releases oficiais, é ancorar-se apenas nas fontes que estão de prontidão para falar.

Não é atoa que as mais belas reportagens e as mais inteligentes narrações de conflitos são aquelas que partem do cenário exato, do cidadão comum, e tentam compreender do local para o global as dimensões de determinada história.

Às vésperas de iniciar uma nova etapa na minha vida e carreira, eu arrisco dizer que se for para ser coletor de aspas, por si só, eu prefiro mudar de profissão.

*texto sobre o livro “O Olho da Rua”

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