O retrato das eleições municipais – lições para 2012

Péricles Carvalho

Com a recente redemocratização do país, faltam estudos que avaliem as características das eleições municipais e o impacto exercido pelas mesmas nas disputas estaduais. Para suprir essa lacuna os cientistas políticos Antonio Lavareda e Helcimara Telles organizaram o livro Como o eleitor escolhe seu prefeito – Campanha e voto nas eleições municipais, editado pela Fundação Getúlio Vargas, composto por artigos escritos por trinta e dois pesquisadores, relatando a eleição municipal de 2008 nas cinco regiões brasileiras.

Ao longo do livro os autores traçam as principais características das disputas eleitorais desde o período da redemocratização – o que serve de análise para a eleição de 2012. No livro são abordadas desde as estratégias de campanha de Duciomar Costa (PTB), eleito em Belém após enfrentar uma avaliação significativa, por exemplo, até o foco “municipalista” de Gilberto Kassab (ex-DEM, e hoje PSD) para enfrentar a popularidade do governo Lula – ambos os cenários de 2008.

Mas além da análise de cada cenário em específico, o livro traz alguns elementos que podem ser extraídos de cada um dos estudos – características “gerais” das eleições municipais.  A importância de analisar as disputas municipais é cada vez mais relevante, até porque, na América Latina a escolha de prefeitos tem peso significativo nas plataformas nacionais. Isso atrai a atenção de políticos e, no contexto goiano, as prefeituras de Goiânia e região metropolitana acabam capitalizando a disputa ao governo do Estado.

No artigo de abertura do livro, Antonio Lavareda se encarrega de mostrar quais foram as marcas da disputa de 2008, e como o resultado nos municípios projeta o futuro e funciona também como uma análise do passado.

Para os autores, o bom momento econômico brasileiro que, mesmo no contexto inicial da crise econômica mundial, foi o tema mais lembrado pela população em relação às notícias do governo Lula em 2008. Este momento é tido como positivo para as prefeituras que registraram incremento de mais de 50% na arrecadação, e aumentaram as possibilidades de “realizar”.

Outro fator peculiar em relação à disputa de 2008, que teve também impacto na eleição de 2010, refere-se ao fenômeno Lula, com popularidade e aprovação inédita na política nacional – na época, de cerca de 70%. Este fato acabou alterando a maneira com a qual a oposição se comportou durante a campanha, levando o debate para um campo mais municipalista, enquanto os candidatos da base de Lula tentavam ao máximo “nacionalizar” a disputa.

Outro fenômeno comum nas eleições municipais é o alto índice de reeleição. Para se ter uma ideia, dos 20 prefeitos candidatos nas capitais, apenas um não se reelegeu em 2008. A explicação chave para tal fenômeno envolve campanha com antecedência, devido à visibilidade dos governantes em suas respectivas prefeituras, a utilização de recursos públicos e o fator propaganda.

Aliás, um dos temas mais sublinhados em todo o livro é a campanha eleitoral na televisão – tida como fundamental nas campanhas. Os autores também discutem a respeito das novas mídias e a internet, mas acreditam que estes meios deverão convergir cada vez mais com as propagandas televisivas e em um futuro próximo não deverão tomar as rédeas do debate eleitoral.

Em relação aos partidos políticos e seus desempenhos em cada um dos 5.565 municípios brasileiros, o livro mostra partidos como o DEM e o PPS perdendo força no país. Para se ter uma ideia, os dados apresentados no livro mostram que em relação à disputa de 2004, o DEM perdeu 36,7% em 2008. O raio-x mostra que os partidos que polarizam o debate a nível nacional são aqueles que crescem em expressividade, os maiores são o PMDB, PSDB e o PT, nessa ordem.

Eleições em Goiânia

No capítulo que analisa a vitória de Iris Rezende (PMDB) em Goiânia, escrito pelos estudiosos Denise Paiva, Heloisa Dias Bezerra e Pedro Floriano Ribeiro, (tanto Denise quanto Heloisa são professoras de ciência política na UFG) o destaque é a constatação de que as pesquisas de opinião têm demonstrado que nem todas as ações de marketing voltadas para o ataque são recebidas de modo positivo. Outro ponto crucial é a avaliação dos candidatos em 2008 mediante voto retrospectivo.

Isso indica que em Goiânia a população pesou na balança a administração municipal e a comparou com as vias da oposição para, assim, escolherem seu candidato. O estudo mostra que além de Iris, nenhum outro candidato tinha grande apelo político – inclusive Sandes Junior (PP), que apesar de grande apelo midiático se mostra ao longo dos anos incapaz de traduzir tal apelo em votos na eleição majoritária, como ressaltam os estudiosos.

Servindo de análise para a disputa de 2012 na capital, o livro adianta que o apelo popular de Iris Rezende teve influência direta no resultado das eleições, e ao contrário de outros eleitorados, os goianienses se dispõem a analisar o governo municipal e compará-lo com as propostas apresentadas pela oposição.

Neste sentido, a pergunta que fica mediante leitura do livro é qual será o impacto do prestígio e a da memória afetiva criada por Iris Rezende na campanha de Paulo Garcia (PT)? E em relação à oposição, a questão que fica é se o PSDB conseguirá apresentar à população respostas claras e viáveis capazes de balancear favoravelmente ao reduto tucano a avaliação dos goianienses. Para os eleitores de Goiânia, tais respostas poderão decidir o embate de 2012.

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