Movimento estudantil: celeiro de líderes

Péricles Carvalho

 

O movimento estudantil mudou. Essa é u­ma constatação fei­ta não só por es­tu­dan­tes envolvidos neste meio, mas também por políticos e agremiações partidárias jovens. Os diretórios, centros acadêmicos e a própria União Nacional dos Estudantes (UNE), que antes uniam todos pela redemocratização, são hoje palcos de disputas políticas entre partidos. O raio-x mostra um crescimento considerável da direita no nicho que antes era totalmente dominado pela esquerda.

Os políticos enxergam as lideranças estudantis como futuros potenciais para seus partidos e buscam nestes movimentos novos nomes para a oxigenação de seus quadros políticos. O resultado são in­vestimentos por parte dos partidos, seja na formação e dou­trina­ção ideológica ou no fi­nanciamento direto de jovens políticos.

Para o presidente da UNE, Augusto Chagas, os estudantes brasileiros sempre foram protagonistas em momentos importantes da história, e isso é reconhecido. Ele ressalta que é importante que a UNE seja uma ferramenta para a formação de novos políticos.

Augusto ressalta que essa perspectiva política acaba atraindo os partidos e faz com que os mesmos “orbitem” nos debates estudantis. De acordo com ele, isso é positivo, uma vez que a UNE é pautada pela democracia. “Existe respeito para com a decisão da maioria dos estudantes, e os partidos disputam esses estudantes”, afirma.

Um dos candidatos à presidência da UNE, marcada para este domingo, 17, Daniel Ilies­cu, afirma que a perspectiva po­lítica não é a principal motivação dos militantes, mas não nega que este é um espaço, ou “u­ma escola”, para os novos políticos.

Crescimento da direita

De acordo com o estudante de Economia e integrante do Diretório Central dos Estudan­tes (DCE) da UFG, Pedro Guilherme, o espaço da direita cresceu no movimento estudantil devido à “despolitização da luta”, que para ele é uma consequência também do fim da ditadura militar. “A PUC-GO é um grande exemplo disso, existe uma grande força da direita atuando lá”, afirma.

Para o estudante de Direito da PUC, Guilherme Alves, que é integrante do DCE da universidade e diretor de Assistência Estudantil da União Estadual dos Estudantes (UEE) “não se pode diferenciar esquerda de direita atualmente”. Ele ressalta que a chapa do DCE da PUC não possui um partido que dita a regra dentro do movimento, apesar de parte dos seus membros possuírem vínculos partidários. “Nossa chapa tem integrantes de vários partidos, como o PSDB, PSB, entre outros”, ressalta.

Segundo o integrante do DCE da PUC, uma maior presença dos partidos de direita nas universidades particulares, em detrimento de uma ampla participação dos mesmos nas instituições pú­blicas, se dá devido ao fato de que a classe média não es­tá envolvida no debate estudantil nas instituições federais.

“Se você for analisar o contexto político estudantil você vai perceber que a maioria dos acadêmicos que participam dos diretórios em universidades públicas são de humanas, vindos de cursos como Ciência Política, Filosofia, Letras – cursos de estudantes que sempre foram de esquerda por virem de famílias mais carentes”, reitera Guilherme Alves.

O vereador de Goiânia Fábio Tokarski (PCdoB), que sempre teve uma afinidade com os movimentos estudantis na capital, analisa o crescimento da direita como uma realidade que demonstra o avanço democrático brasileiro. Ele afirma que mais do que contestar governos legítimos, ser “transformador” exige debate.

Segundo Tokarski, com a visão de abocanhar novos líderes dentro das universidades, alguns partidos atraem jovens principalmente a partir de “financiamentos”, o que revela a influência da “mão pesada do poder econômico por trás de certos grupos políticos”.

De acordo com Pedro Guilherme, do DCE da UFG, a chapa que está no diretório é formada por estudantes filiados a vários partidos, além de uma grande parcela de estudantes não filiados. Mesmo não tendo uma unidade, o grupo é considerado de esquerda, afirma ele. “Nossa posição é de oposição ao governo federal”.

No entendimento das lideranças do DCE, o atual governo não é considerado como esquerda. “O REUNI (Progra­ma de Expansão e Reestru­turação das Universidades Federais), do governo Lula, destroi os espaços de convivência entre alunos e quer implantar nas instituições federais um sistema parecido com as universidades particulares”.

Tensão

Em março,a eleição para o DCE da PUC gerou diversos atritos, principalmente entre forças do PSDB e PMDB. Entre acusações a respeito da legitimidade do processo eleitoral, ocorreu a tomada do espaço físico do DCE por parte dos estudantes supostamente simpatizantes com o PSDB. “O PSDB tentou transformar as eleições da Católica numa briga político partidária”, diz Guilherme, que descreve aquele período como de “grande conturbação política”.

Do outro lado, os tucanos afirmam se tratar de uma eleição sem legitimidade, e acusam os estudantes da chapa vitoriosa de vínculo com o PMDB.

Matéria publicada em 2011, na ocasião do Congresso da UNE em Goiânia. Na época, entrevistei Iliescu antes de ser eleito presidente da União. O interessante desse material é captar as divisões internas, os clãs do movimento estudantil, além de constatar um fato curioso: o crescimento dos movimentos jovens de direita.

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