Foco na política econômica

A maior preocupação de Dilma no momento será como administrar uma provável recessão

O governo Dilma enfrenta no momento uma crise política interna, isso é fato. Mas para analistas políticos, o principal foco neste momento é tentar sanar os problemas internos para se dedicar em especial à diminuição de um possível impacto da crise economica mundial no país.

“Não estamos numa bolha, e isso deve ter reflexos na nossa economia”, afirma o cientista político da PUC de São Paulo, Rafael Cortez, a respeito da crise que há algumas semanas vem assombrando o mercado financeiro internacional. A própria presidente Dilma Rousseff  já demonstrou ao longo da última semana sua preocupação com o tema.

Em entrevista à revista Carta Capital da última semana, Dilma afirmou que “não vai gastar todo o seu tempo” com os escândalos que saem  nos jornais, e disse que deverá se dedicar a assuntos mais importantes para o desenvolvimento do país.

“O que acho complicado no Brasil é que os problemas reais perdem espaço para os acessórios”, reiterou a presidente na entrevista. Durante os últimos dias, Dilma deu outras declarações a respeito do momento de incerteza no cenário internacional.

Eleitorado em jogo

O que também está em jogo, caso o cenário de recessão se confirme, é o futuro daqueles que elegeram Dilma Rousseff. Trata-se de uma classe média emergente que de acordo com cientistas políticos e economistas, “pensam com o bolso”.

De acordo com os estudiosos, um dos fatores pelo qual a presidente se mantém sem grandes alterações na avaliação de sua imagem política se dá porque não há nenhum reflexo direto no dia-a-dia do cidadão. De acordo com pesquisa CNI /Ibope publicada na primeira quinzena do mês, a popularidade da presidente continua em alta. Dos entrevistados, 67% avaliam como ótimo e bom o desempenho pessoal de Dilma.

Para o cientista político da PUC Goiás, Eber Vaz, a nova classe média sofre riscos de perda desde o início do governo, devido aos problemas relacionados à inflação. “Dilma faz uma política de ajuste fiscal, pois herdou uma tendência inflacionária do governo anterior”, explica.

A cúpula do governo Dilma já percebeu que o tema pode afetar o jogo político futuro. Há o temor de que o país não consiga vencer as pressões impostas pela indústria internacional, que ociosa verá em países como o Brasil um importante mercado consumidor. Mas de acordo com Eber Vaz, dependendo do impacto da crise, o governo Dilma poderá sofrer menos, devido ao fato de que este ainda é o período inicial do governo.

Dados da pesquisa publicada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) no ano passado revelam que mais da metade da população brasileira passou a compor a classe média. Cerca de 3 milhões de pessoas migraram das classes D e E para a classe C entre 2008 e 2009, aponta o estudo.

Crise

Para Eber Vaz, a redução do crescimento registrado nos dias atuais ainda não é um resultado direto da crise. De acordo com o estudioso, a estagnação econômica poderá ser uma das consequências de maior impacto caso a crise afete o país.

Se este quadro se configurar, o eleitorado de Dilma que teve seu poder de compra aumentado significativamente nos últimos anos perderá com alta de juros e desemprego. “Nós vivemos atualmente um período de estabilidade na geração e manutenção de empregos, mas caso a crise se agrave no país, deverá resultar em desemprego”.

“O contexto de crise pode afetar o cidadão. Serão necessárias medidas de controle, como um reajuste fiscal, por exemplo. Mas também existem pressões da população para a diminuição de juros. Tudo isso precisará ser feito com muita cautela”, afirma Cortez.

No primeiro semestre Dilma enfrentou problemas em relação à inflação, afirma Cortez, que avalia o desempenho da política adotada naquele momento como positiva. “No primeiro semestre tivemos problemas com a inflação, mas houve total controle”, afirma ele.

Rearranjo não é excepcional

Em pouco mais de sete meses de governo, quatro ministros caíram, um foi realocado e outro está sob suspeita e deverá prestar esclarecimento nos próximos dias. Alfredo Nascimento dos Transportes, Antonio Palocci na Casa Civil, Luiz Sérgio nas Relações Institucionais, Nelson Jobim na Defesa, Wagner Rossi na Agricultura e Pedro Novais no Turismo – estes são os principais atores do escândalo.

De acordo com o cientista político Rafael Cortez, o governo Dilma enfrenta dificuldades em relação à “agenda negativa” nos ministérios. Mas ele ressalta que o remanejo de ministros não é um fato exclusivo do governo Dilma.

“O reajando da base  não é algo excepcional deste governo”, ressalta Cortez. Mas apesar de não se tratar de um problema apenas deste pleito, ele afirma que as circunstâncias atuais são bem diferentes.

Primeiro por não se tratar de um problema da presidente, uma vez que ela “não foi autora da coalisão política, que já existia desde o governo Lula”. E segundo, porque o momento exige a definição de uma política econômica, e de um governo afinado, para que o país sofra o mínimo possível com uma provável recessão.

A GESTORA DILMA E O COMBATE À CORRUPÇÃO

Para o cientista poítico da UFG, Pedro Célio, Dilma passa por um momento de formação de sua imagem, e vive “a necessidade de afirmar seu perfil político e seu governo”. De acordo com ele, trata-se de um momento de grandes desafios para a presidente, uma vez que ela precisa lidar com uma ampla coalisão política que foma a sua base política.

A postura de Dilma em relação ao que chamam de “faxina” nos ministérios é vista por Pedro Célio como um processo já esperado diante da aglutinação de grupos tão heterogêneos. “Em casos assim, as tensões nunca acabam”, afirma ele.

Para o cientista político Rafael Cortez, os últimos acontecimentos mostram que a presidente tem “uma disposição um pouco menor para o diálogo”, o que segundo ele, não foi visto durante os oito anos em que Lula esteve no poder. Cortez ressalta que Dilma busca a eficiência da máquina pública, e por isso mesmo vem agindo dessa maneira.

Os analistas também acreditam que o perfil de chefe que Dilma vem desempenhando a favorece diante do eleitorado. Para eles, ela acaba passando uma imagem de presidente que combate a corrupção, o que é bem visto pelas pessoas e acaba dissociando sua imagem do estereótipo de político corrupto.

Além disso, existe o aspecto político por trás de todas as demissões e afastamentos – a desestruturação da base aliada do governo. Pedro Célio disse não acreditar que exista grande atrito entre Dilma e o PT.

“ A relação dela com o PT se resolveu desde as eleições. O presidente Lula fez uma boa costura”. Entretando o estudioso afirma que a política é sempre contínua, e tensões podem voltar a existir, assim como outras podem ser criadas. “Sem esses fatores, não há política”, afirma.

De acordo com Rafael Cortez, mais nomes podem cair nos próximos dias, porém é preciso “cautela para manter a base”. O mesmo é defendido por Pedro Célio que é categórico ao afirmar que mais nomes surgirão. “Isso aconteceu com o PR e vai continuar acontecendo com outros partidos, como o PMDB e o PT”. Em sua análise, o cientista político da UFG afirma que caso as mudanças sejam grandes, é possível que Dilma perca parte de sua aliança política.

Oposição

Um dos principais nomes da oposição na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (DEM) afirmou na sexta-feira passada durante o evento de lançamento da Celg, que Dilma não está realizando uma “faxina” nos ministérios. “Se Dilma fosse diarista, você a contrataria para dar uma faxina na sua casa?”, pergunta Caiado, que continua afirmando que trata-se de uma jogada de marketing.

“Dilma Rousseff não tem controle sob seu governo, e a população já percebe isso com a questão da inflação”, disse Caiado. Sobre os resultados das pesquisas, o deputado afirma que ela já cai nos índices, e em alguns setores, a população já mostra insatisfação.

ENTREVISTA: CRISE PODE AFETAR NOVA CLASSE MÉDIA

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Economia (CORECON), Júlio Paschoal, a crise política só afetará a economia brasileira caso chegue ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central. O economista também admite que a crise pode gerar desemprego, e neste momento de incerteza, o melhor a se fazer é poupar.

A estagnação econômica pode ser uma das consequências da crise no Brasil? Em termos práticos, o que significa isso para a nova classe média brasileira?

Se além dos Estados Unidos e Europa, a China, também reduzir sua demanda por commodities, pode considerar que sim. No entanto se a China continuar consumindo o país pode passar pela crise com menos trauma uma vez que as vendas externas não irão cair tanto, o excedente poderá ser absorvido pelo mercado interno. Isto se o Banco Central flexibilizar a política monetária estimulando a produção e  o consumo.

Quanto a nova classe média, digo que pode ser afetada se no mercado interno a política continuar de restrição ao consumo, pois aí implicaria em desemprego, passando de uma taxa de 6,2% que pode ser considerada  relativamente baixa em relação ao resto mundo para um percentual acima deste.

Quais devem ser os rumos tomados pelo governo Dilma, no tocante a política econômica nos próximos meses, e como isso deverá afetar a população?

Se o governo mantiver o superávit primário (receita-despesa exceto juros), combinado com a queda do preço das commodities no mercado externo, lhe abrirá espaço para redução de juros e alguma desoneração tributária uma vez que a carga tributária gira em torno de 37% do PIB, com isso poderá voltar a estimular a produção no mercado interno.

Neste cenário as classes sociais sofreriam menos pois os empregos e a massa de salários se manteriam na economia. De qualquer forma as pessoas devem ter cautela em seu endividamento e procurar poupar mais para evitar transtornos futuros, caso a economia entre em um processo de queda, puxada pela instabilidade dos mercados.

A crise política pode afetar sistematicamente a política econômica do governo?

A crise citada é política e não econômica, uma vez que ela não envolve o ministério da fazenda e nem o Banco Central. A presidente têm, a meu ver, tomado as medidas corretas retirando dos ministérios os envolvidos nos atos considerados ilícitos, portanto não há relação deste problema com o problema advindo da economia mundial.

As estratégias a serem tomadas para vencer o período de crise virão do Ministério da Fazenda e do Banco Central, portanto não vejo nenhum problema neste sentido.

Matéria publicada em 2011 quando a presidente Dilma Rousseff (PT) iniciou a chama “faxina” nos ministérios. Na ocasião, meados de agosto, analisei especificamente as políticas econômicas no país – além de problemas envolvendo líderes do governo em Brasília, Dilma tinha como desafio passar por uma nova onda da crise mundial. Resguardar a nova classe C que ascendeu no governo Lula e é o principal legado do PT.

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